Depois do voto: 4,3 mil denúncias de assédio no trabalho e aldeias sob proteção da Força Nacional
Em três dias, o Ministério do Trabalho recebeu 4.305 queixas de patrões que pressionam empregados pelo voto; em Mato Grosso do Sul, servidores admitiram à PF ameaças de envenenar a água de uma aldeia. O que já foi comprovado, o que ainda é só denúncia e o que cada lado diz.
Redação Apuração 2026 · 31 de outubro de 2026

Passada a reeleição de Lula (PT) em 25 de outubro, a disputa política não terminou nas urnas: mudou de endereço. Em três dias, o novo canal de denúncias do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) registrou 4.305 queixas de assédio eleitoral — trabalhadores que dizem ter sido pressionados, ameaçados ou demitidos por causa do voto. A mais de mil quilômetros de Brasília, em Mato Grosso do Sul, dois servidores de uma prefeitura admitiram à Polícia Federal ter gravado áudios com ameaças de envenenar a água de uma aldeia guarani-kaiowá.
São duas faces da mesma tensão do pós-eleição, e exigem a mesma cautela: como ressalva o próprio Ministério do Trabalho, registrar uma denúncia não equivale a comprovar o assédio, e nem todo caso levantado por entidades foi confirmado pelas autoridades. Este texto separa o que já está comprovado do que ainda está sob investigação.
Assédio no trabalho: 4,3 mil denúncias em três dias
O MTE abriu em 28 de outubro um canal exclusivo para o tema, o `assedioeleitoral.trabalho.gov.br`. Nos três primeiros dias de funcionamento, entre 28 e 30 de outubro, recebeu 4.305 denúncias. O Sudeste concentrou quase metade (48,5%), com São Paulo à frente, 1.325 queixas, seguido por Rio de Janeiro (354), Minas Gerais (345), Paraná (268) e Santa Catarina (259). Nos extremos opostos, Roraima e Tocantins tiveram 17 cada.
O ministério define assédio eleitoral como a situação em que "um chefe ou superiores hierárquicos pressionam o trabalhador a votar ou deixar de votar em um determinado candidato". O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que o voto é livre e secreto e que empregadores não podem interferir na escolha dos empregados; demitir alguém por posição política, se comprovado, obriga a empresa a reintegrar o trabalhador e a pagar indenização por danos morais.
O próprio governo faz uma ressalva importante, e ela vale para os dois lados: registrar uma denúncia não equivale a provar o assédio. Cada caso é analisado pela Auditoria-Fiscal do Trabalho antes de qualquer punição. Os números do MTE são um canal novo e somam-se a outra contagem, a do Ministério Público do Trabalho (MPT), que em 2026 já havia recebido 3.396 queixas — total que, segundo o g1, superou o das eleições de 2022. Depois do 2º turno, as denúncias ao MPT cresceram 75%, com 1.459 novos registros em três dias.
Casos concretos, nos dois sentidos
Por trás dos números há casos com nome. No Ceará, uma juíza do Trabalho mandou uma empresa reintegrar 22 funcionários demitidos logo após a eleição e classificou a conduta de "perversa". A deputada federal Índia Armelau (PL) chegou a sugerir, em rede social, que empresários checassem as redes de seus funcionários para ver em quem votaram, segundo a Agência Brasil.
A intolerância, porém, não veio de um lado só. A Intelbras demitiu um funcionário que publicou nas redes uma mensagem interpretada como ameaça às filhas de Flávio Bolsonaro, de 12 e 14 anos. "O profissional envolvido em publicações recentes em redes sociais não integra mais o quadro de colaboradores da companhia", informou a empresa. Casos de demissão por crítica política também atingiram quem é de direita: a apresentadora Thayse Teixeira foi desligada do SBT após falas sobre o STF e as eleições.
A "lista suja" e a ação contra a Meta
A reação do governo foi além da fiscalização. O advogado-geral da União, Jorge Messias, anunciou ações judiciais contra empregadores e plataformas, afirmando que "pressionar ou ameaçar trabalhadores em razão de suas escolhas políticas é inaceitável". O Ministério do Trabalho estuda criar uma lista de empresas flagradas em assédio eleitoral, nos moldes da lista do trabalho escravo, o que poderia restringir o acesso delas a crédito público. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, falou em resposta "dura e célere" a quem praticou ilegalidade.
A medida de maior alcance mirou as redes. O MPT foi à Justiça do Trabalho pedir R$ 50 milhões da Meta e a remoção de publicações que incentivavam patrões a vigiar, expor ou demitir empregados pelo voto — algumas com frases como "demita um petista". A Justiça determinou que a plataforma retirasse esse conteúdo do ar em até 24 horas; o julgamento do pedido de indenização ficou marcado para 2027. Procurada, a Meta informou que não iria comentar.
Vozes da direita também condenaram a perseguição. O presidente do PL em Minas Gerais, deputado Zé Vitor, pediu o fim dos boicotes e da intolerância contra quem pensa diferente — "Que vergonha!", escreveu — e fez autocrítica ao próprio campo.
Mato Grosso do Sul: ameaças, um incêndio e o áudio sobre a água

A outra frente de tensão é indígena, e está concentrada em Mato Grosso do Sul. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) diz ter contabilizado mais de 30 casos de violência contra indígenas no estado após o 2º turno. No levantamento nacional da entidade, que vai de julho a outubro, são 38 episódios em 15 estados e 5 mortes. O coordenador jurídico da Apib, Ricardo Terena, afirma que a violência "foi estimulada por candidatos que utilizaram a violência contra o direito dos povos indígenas como palanque eleitoral" — uma leitura da entidade, que as investigações ainda não confirmaram.
O caso mais grave já tem confissão. Em um áudio que circulou em grupos de WhatsApp em Tacuru depois da vitória de Lula, uma voz dizia: "Tem que por veneno na água, tem que matar essas pragas na água", em referência à aldeia Sassoró, do povo guarani-kaiowá. Dois servidores da prefeitura de Tacuru admitiram à Polícia Federal ter gravado os áudios. Em depoimento, alegaram que estavam embriagados e que não tinham meios de executar a ameaça. Os dois foram afastados e respondem a processo administrativo; o prefeito, Rogério Torquetti (PSDB), confirmou os afastamentos e disse que nenhum deles trabalha no abastecimento de água. O Ministério Público Federal investiga.
Outros episódios atribuídos ao período eleitoral ainda estão sob apuração: o incêndio de uma casa de reza em Jaguapiré, também em Tacuru, que destruiu objetos sagrados; relatos de atropelamentos em Coronel Sapucaia; e a investigação de mortes em Naviraí. No Paraná, um prédio da Funai foi alvo de um ataque com explosivo no início de outubro, caso que a PF e a Abin apuram.
A resposta oficial: força-tarefa, comitiva e Força Nacional
O governo federal criou uma força-tarefa que reúne os ministérios dos Povos Indígenas, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, com apoio da Polícia Federal e da Funai, para apurar os casos e identificar responsáveis. Em 31 de outubro, uma comitiva de ministros foi a Mato Grosso do Sul: Eloy Terena (Povos Indígenas), Wellington César Lima e Silva (Justiça e Segurança Pública) e Janine Mello (Direitos Humanos) visitaram as aldeias Sassoró, em Tacuru, e Taquapery, em Coronel Sapucaia.
A Força Nacional já patrulha a região e terá o efetivo ampliado. O ministro da Justiça anunciou um procedimento de monitoramento em tempo real, o "Minuto a Minuto", com imagem e identificação do tipo de ocorrência. A tropa federal atua em articulação com as forças de segurança do estado.
É o próprio governo, porém, quem calibra a dimensão do problema. Depois de filtrar as denúncias, o Ministério dos Povos Indígenas chegou a dez casos, quatro deles em Mato Grosso do Sul, e o ministro Eloy Terena foi cauteloso ao ligá-los ao resultado da eleição: segundo ele, "apenas esse caso do envenenamento tem uma ligação direta com crime político".
O que se sabe e o que não se sabe
Sabe-se que o pós-eleição produziu um volume incomum de denúncias de assédio no trabalho — milhares em poucos dias — e que a Justiça já mandou reintegrar demitidos e remover conteúdo das redes. Sabe-se que houve ameaças a indígenas em Mato Grosso do Sul, uma delas confessada à PF, e que o governo mobilizou força-tarefa, comitiva e a Força Nacional.
O que ainda não se sabe é quanto de cada número vai se confirmar como crime: denúncia não é condenação, e boa parte dos casos — as mortes e os atropelamentos relatados, as demissões contestadas — segue sob investigação. Tampouco se deve transferir a eleitores a responsabilidade por atos individuais: a violência partiu de pessoas específicas, de um lado e de outro, e é a cada uma delas que a lei terá de responder. As respostas virão dos inquéritos e dos processos. Até lá, os fatos comprovados são estes; o resto é apuração, e você acompanha as versões de cada campo na página de notícias.


