Trump ajudou Flávio a fugir? O jato, o visto humanitário e a escolta argentina
Segundo o New York Times e o Wall Street Journal, um assessor da Casa Branca arranjou o jato, Trump aprovou pessoalmente a entrada e um assessor de Milei acompanhou o embarque na Argentina. O que se sabe, hora a hora, e o que cada governo diz.
Redação Apuração 2026 · 29 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro (PL) passou a noite de terça-feira (27) atravessando três países. Quando desembarcou na Flórida, na manhã de quarta, já tinha o que nenhum brasileiro comum consegue em uma noite: autorização pessoal do presidente dos Estados Unidos para entrar no país. A pergunta que a oposição argentina faz em voz alta, e que o governo brasileiro já respondeu em privado, é até onde foi a ajuda de Donald Trump e de Javier Milei.
As respostas abaixo vêm de duas reportagens americanas, do *New York Times* e do *Wall Street Journal*, e de autoridades dos três países. A Casa Branca não as desmentiu.
A fuga, hora a hora
- Segunda (26): Moraes manda Flávio entregar os passaportes em 24 horas e o proíbe de deixar o país. Segundo o NYT, o plano de saída foi posto em prática nesse mesmo dia, intermediado por Eduardo Bolsonaro, que mora nos EUA desde 2025. À noite, os carros que deixam a casa de Flávio em Brasília seguem em direções diferentes para despistar jornalistas e autoridades, relata o WSJ.
- Terça (27), manhã: termina o prazo. Os passaportes não são entregues e a PF os cancela. Aliados começam a espalhar que Flávio já está na Flórida. Ele ainda está no Brasil.
- Terça, durante o dia: segundo fontes do WSJ, Trump aprova pessoalmente a entrada de Flávio e da família, e o secretário de Estado, Marco Rubio, providencia os vistos.
- Terça, 22h50: Flávio, a mulher e as filhas atravessam a Ponte Internacional Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu, rumo a Puerto Iguazú, segundo as autoridades migratórias argentinas. O carro é escoltado pela polícia aeroportuária argentina até o aeroporto, onde está Santiago Caputo, um dos principais assessores de Milei, que, segundo o WSJ, coordenava a ação com Eduardo Bolsonaro.
- Quarta (28), 0h21: um Gulfstream G400 da fretadora Baires Fly decola de Puerto Iguazú para Guayaquil, no Equador, para reabastecer. No plano de voo, Flávio aparece com um passaporte italiano. O jato, segundo o NYT, foi conseguido por Jason Miller, funcionário da área de comunicação da Casa Branca.
- Quarta, de manhã: o avião pousa em Opa-locka, na Flórida. Horas depois, Flávio publica a carta em que se diz "o verdadeiro presidente eleito do Brasil".
O visto que Trump fechou para os outros
Flávio não entrou com visto comum. Recebeu o humanitarian parole, uma permissão de entrada por "razões humanitárias urgentes ou benefício público significativo", válida por um ano. Segundo o NYT, ele deve pedir o green card, e o pedido seria processado rapidamente, como foi o de Eduardo, que recebeu o dele em julho.
O detalhe que a Folha destacou é a ironia: Trump desmontou esse mesmo instrumento para todos os outros. O governo americano anunciou neste mês que passou um ano fiscal inteiro sem conceder o parole a imigrantes na fronteira, e encerrou o programa que acolhia cubanos, haitianos, nicaraguenses e venezuelanos que fugiam de perseguição política ou de colapso humanitário.

O que Trump diz
Trump confirmou que autorizou a entrada de Flávio, mas se recusou a comentar a carta: "Não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo." Voltou a falar, sem apresentar provas, em fraude, chamou a eleição de "uma vergonha" e, no mesmo dia, disse que não tomou partido porque Lula lhe pediu, e que vai conversar com ele.
Houve, porém, um limite. Segundo diplomatas ouvidos pelo g1, foi o Departamento de Estado que pediu a Flávio que apagasse o "presidente eleito" da carta: acolher o senador era uma coisa; acolhê-lo como presidente seria romper com o governo brasileiro. Na versão seguinte, ele virou "líder do Brasil".
E Milei?
O chefe de gabinete argentino, Diego Santilli, afirmou que a saída foi legal: Flávio tinha documentação regular e não havia "impedimento da Interpol". Santilli não respondeu sobre a presença de Caputo no aeroporto. A oposição argentina cobra explicações, e a Folha revelou que o jato pertence a uma empresa citada no esquema de corrupção que derrubou um aliado de Milei. Na carta, Flávio agradeceu ao presidente argentino pela "coragem, senso de justiça e legalidade".
E o Brasil?
O Planalto está convencido de que Estados Unidos e Argentina participaram da operação, mas decidiu não reagir. A ordem é manter o pragmatismo, como na crise do tarifaço, e esperar as eleições legislativas americanas da próxima terça. Na prática, a resposta vem por canais discretos: o governo avalia segurar o aval ao embaixador indicado por Trump, e o chanceler Mauro Vieira pode encontrar Rubio nesta semana, no G20, em Atlanta.
Então, Trump ajudou?
Pelo que foi publicado até agora, sim, e não só com palavras. Trump confirmou que autorizou a entrada, e o instrumento usado foi uma permissão humanitária que o próprio governo dele nega a quase todo mundo. Segundo o New York Times e o Wall Street Journal, um funcionário da Casa Branca arranjou o jato, e a Casa Branca não desmentiu. O que ainda não se sabe é se houve ajuda antes da fronteira: como Flávio foi de Brasília a Foz do Iguaçu é o que a Polícia Federal tenta descobrir.
Para os aliados de Flávio, os Estados Unidos fizeram o que países livres fazem: deram abrigo a um perseguido. Para o governo brasileiro, ajudaram um investigado a descumprir uma ordem judicial. As duas leituras concordam num ponto: sem Washington e Buenos Aires, Flávio ainda estaria no Brasil.


