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Lula quer ver Flávio preso? O que sustenta e o que derruba a tese da perseguição

Em quatro dias, o derrotado de 25 de outubro teve o passaporte cassado, deixou o país às escondidas, chegou a Miami num jato arranjado na Casa Branca e se declarou presidente. A direita fala em exílio; a esquerda, em fuga. Os fatos, e os argumentos de cada lado.

Redação Apuração 2026 · 29 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro fala à imprensa após o 2º turno, cercado de aliados
Flávio Bolsonaro fala à imprensa após o 2º turno, cercado de aliados · Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

No domingo, 25 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) perdeu a Presidência para Lula (PT) por 4,4 milhões de votos. Na segunda, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, mandou que ele entregasse os passaportes e o proibiu de deixar o país. Na terça, o prazo acabou sem a entrega e a Polícia Federal cancelou os documentos. Na quarta, Flávio, a mulher e as duas filhas desembarcaram em Miami, depois de um voo saído da Argentina com escala no Equador, num jato que, segundo o New York Times, foi providenciado por Jason Miller, funcionário de comunicação da Casa Branca. Horas depois, divulgou uma carta em que se dizia "o verdadeiro presidente eleito do Brasil".

Para a esquerda, é a fuga de quem teme a Justiça. Para boa parte da direita, é o exílio de um perseguido. A pergunta que divide o país desde segunda-feira é simples de fazer e difícil de responder: Lula quer ver o adversário preso?

A tese da perseguição

O argumento mais forte da direita não vem de Brasília, mas de Nova York. Em editorial publicado na quarta (28), o Wall Street Journal, o principal jornal de negócios dos Estados Unidos, escreveu que, no Brasil, "a vitória traz consigo a vingança política". "Espera-se que os vencedores na política sejam magnânimos com os derrotados; no Brasil, contudo, eles processam os perdedores", diz o texto, traduzido pela Gazeta do Povo.

O jornal lembra que Flávio é investigado, mas não foi acusado formalmente de crime nenhum, e cita uma frase dita pelo próprio Lula no debate da Band, uma semana antes do 2º turno:

"Você se prepare, porque no dia 25, você vai perder imunidade e você vai ter problema, porque a sua vida tem muito inquérito que agora vai andar."

"Lula escolheu o alvo e prometeu encontrar o crime", concluiu o WSJ, que fecha o editorial com um alerta: "Países que transitam da liberdade para a autocracia seguem, via de regra, um caminho semelhante: um demagogo vence nas urnas, apropria-se do Judiciário e encarcera seus opositores. [...] Não está claro se o Brasil conseguirá" resistir.

Os fatos que a direita junta a esse argumento são reais. Depois da saída de Flávio, o PT pediu a prisão preventiva do senador e a inclusão do nome dele na difusão vermelha da Interpol. Deputadas do PSOL pediram a cassação do mandato e o bloqueio de bens dele e da mulher. O próprio Lula disse que Flávio "fugiu" e "deve ter culpa na consciência", e que "quem não deve, não teme". O pai de Flávio, Jair Bolsonaro, cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe, em processo relatado pelo mesmo Moraes. O vice na chapa de Flávio falou em "perseguição implacável"; Sergio Moro achou a saída "compreensível"; juristas ouvidos pela Gazeta do Povo apontaram perseguição política. Até Rui Costa Pimenta, candidato do PCO, de extrema esquerda, disse que Flávio sofre "perseguição política" de Moraes.

O que pesa contra Flávio

A ordem para entregar o passaporte não partiu do governo, como sugere o editorial americano, mas de um ministro do STF, a pedido da Polícia Federal. No pedido, a PF apontou risco concreto de fuga e suspeitas sobre o destino de dinheiro ligado a Daniel Vorcaro, o banqueiro do caso Master. Flávio é citado em dois inquéritos; o que está com Moraes apura lavagem de dinheiro. O mandato de senador acaba em 1º de fevereiro de 2027; pela jurisprudência atual do STF, os inquéritos ligados ao exercício do cargo devem continuar no Supremo mesmo depois disso.

O risco apontado pela PF se confirmou em menos de 48 horas. Na segunda, Flávio disse que não sairia do país e entregaria o passaporte. Foi visto pela última vez em Brasília. Os advogados dele disseram à Justiça que não conseguiram localizá-lo. Rogério Marinho, coordenador da campanha, contou que Flávio disse que ia "dar um tempo" e sumiu. Lideranças do PL disseram não ter sido avisadas, e o Senado também não foi comunicado.

Quem se diz perseguido costuma pedir proteção a tribunais. Flávio pediu a Trump. Segundo o New York Times, ele teria apresentado na imigração americana um passaporte diplomático já cancelado e recebeu o parole, uma admissão concedida "por razões humanitárias urgentes ou por benefício público significativo", e deve pedir o green card.

A carta

O que transformou a saída numa crise foi o texto divulgado na chegada a Miami. Na primeira versão, Flávio se apresentou como "o verdadeiro presidente eleito do Brasil". A Folha identificou pelo menos quatro versões, com troca de brasão; na última, ele virou "líder do Brasil". Segundo o g1, foi o próprio governo americano que pediu que ele retirasse o "presidente eleito". Aliados passaram a culpar o ChatGPT pelo vaivém.

A carta fala em fraude. Não há prova de fraude, e quem diz isso não é o PT. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, afirmou que a eleição transcorreu em "absoluta normalidade". Os 34,3 mil votos registrados depois das 17h, durante a prorrogação do horário, somam menos de 0,03% do total, e a diferença a favor de Lula foi 130 vezes maior.

Sozinho em Miami

A reação mais dura à carta veio da direita. "Não gostei, ninguém aprovou", disse Valdemar Costa Neto, presidente do PL, o partido de Flávio, que já havia reconhecido a vitória de Lula. Marinho admitiu que não há provas de fraude no 2º turno. União Brasil e MDB, que apoiaram Flávio, divulgaram notas em defesa do resultado. Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo e apontado pela Folha como o novo líder da direita, disse entender "a indignação e a revolta" de Flávio, mas foi claro: "A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente". Até o pastor da igreja que Flávio frequenta em Brasília escreveu: "Não tem terceiro turno. Vida que segue!". E Renan Santos, que disputou a Presidência pela direita, chamou a estratégia de "oposição EAD".

Em Washington, Trump repetiu sem apresentar provas que a eleição "pareceu fraudada", chamou-a de "uma vergonha" e, no mesmo dia, disse que não tomou partido porque Lula lhe pediu.

Então, é perseguição?

Os dois lados têm fatos a seu favor. Lula prometeu, em rede nacional, que os inquéritos contra o adversário "iam andar" depois da eleição, e seu partido pediu a prisão de Flávio dias depois. O ministro que mandou reter o passaporte é o mesmo que relatou o processo que condenou o pai dele. Não há, até agora, denúncia formal contra o senador. Quem acredita em perseguição não está inventando nada disso.

Mas a medida contra Flávio foi pedida pela Polícia Federal e decidida por um ministro do STF, não pelo Planalto. Ela não o prendeu: só o proibiu de deixar o país. Ele prometeu cumprir a ordem e saiu escondido. Depois se declarou presidente de um país em que perdeu por 4,4 milhões de votos, numa eleição que o próprio partido e o presidente do TSE indicado por seu pai consideram limpa.

O caso agora está nas mãos de quem decide se Flávio será acusado: a Procuradoria-Geral da República, o STF e, até o fim do mandato, o Senado. Se Flávio é um perseguido ou um foragido, vão dizer os processos, e eles terão de ser julgados à luz do dia. Até lá, os fatos são estes. As leituras, você acompanha na página de notícias, com as manchetes da imprensa de esquerda, de centro e de direita lado a lado.

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