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Lula tem 18 meses para arrumar as contas? O que o mercado cobra, e o que o governo responde

A reeleição de Lula foi recebida com disparada do dólar e tombo da Bolsa, e economistas falam numa "janela" de um ano a 18 meses para reorganizar o fiscal antes que as eleições de 2028 travem o Congresso. O governo promete responsabilidade fiscal — mas recusa cortar gastos sociais. O que se sabe sobre o prazo.

Redação Apuração 2026 · 8 de novembro de 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião ministerial no Palácio do Planalto, em março de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante reunião ministerial no Palácio do Planalto, em março de 2026 · Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A primeira resposta dos mercados à reeleição de Lula (PT), em 25 de outubro, veio no pregão seguinte e foi dura. Em 26 de outubro, o dólar subiu 8,21% e fechou a R$ 5,403, enquanto o Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608,23 pontos, segundo a Agência Brasil. Parte do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro e precisou desmontar suas posições às pressas.

Passada a turbulência inicial, ficou a pergunta de fundo: o governo consegue reorganizar as contas públicas a tempo de evitar um problema orçamentário maior? Economistas e gestoras vêm trabalhando com um prazo curto — de um ano a 18 meses — para que o quarto mandato aprove reformas ou um ajuste fiscal consistente. Depois disso, dizem, a política eleitoral fecha a porta. Este texto reúne o que está em jogo, o que o mercado cobra e o que o governo tem respondido.

O tombo de 26 de outubro — e a correção

A reação foi forte, mas boa parte dos bancos a considerou exagerada. Desde 23 de outubro, véspera do segundo turno, o dólar acumulou alta de 10,33% frente ao real — o maior ganho semanal desde outubro de 2008, segundo o Brasil 247. Ainda assim, instituições de fora viram espaço para correção: o Commerzbank manteve projeção de R$ 5,20 para o fim do ano e classificou o movimento como "agudo"; o Wells Fargo ampliou a aposta na recuperação do real, para R$ 5,30, chamando a reação de "exacerbada e desproporcional"; a Capital Economics, mais cautelosa, elevou sua projeção de R$ 5,40 para R$ 5,50, reconhecendo as incertezas fiscais.

O pano de fundo monetário já estava tenso antes mesmo das urnas. Em 4 de novembro, o Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo uma sequência de cortes e apontando, no comunicado, o "aumento significativo das incertezas" e a pressão do câmbio. Juros altos e dólar caro convivem com o mesmo ponto de interrogação: as contas públicas.

A conta que preocupa o mercado

O desconforto não é com um número isolado, e sim com a trajetória. A dívida pública bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central, e a projeção da pesquisa Focus é de que suba a 95,1% do PIB em 2030 caso o ajuste não avance, conforme levantamento da Gazeta do Povo. Mais de 90% do Orçamento de 2027 está comprometido com despesas obrigatórias, que, segundo cálculos da gestora Kinea citados pela mesma reportagem, devem crescer R$ 131,4 bilhões no ano.

Há divergência sobre o resultado das contas já no próximo ano. O projeto de Orçamento de 2027 prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões (0,13% do PIB), mas a Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, projeta déficit de R$ 86,1 bilhões — uma distância que mede o tamanho do ceticismo.

Para os economistas Marcos Lisboa, da Gibraltar Consulting e ex-secretário de Política Econômica, e Marcos Mendes, do Insper, o problema é estrutural. Em estudo citado por O Antagonista, eles calculam uma expansão fiscal de R$ 190 bilhões em dois anos, com efeitos que se arrastam, e apontam o uso de mecanismos que contornam o arcabouço fiscal. A conclusão dos dois é que "as dificuldades de ajuste fiscal em 2027 serão ainda maiores".

A "janela" de 18 meses

O prazo que circula no mercado tem uma lógica de calendário. A janela vai de janeiro de 2027 a meados de 2028: segundo a Kinea, é nesse intervalo que o governo tem condições políticas de aprovar medidas impopulares, porque, a partir da metade de 2028, "as campanhas das eleições municipais de 2028 travam a aprovação de reformas". Daí a conta de "um ano a 18 meses" para reorganizar o fiscal — não um colapso iminente, mas a avaliação de que a oportunidade de agir é estreita e tem data para fechar.

Vale a atribuição: esse é o diagnóstico do mercado financeiro e de analistas, não um fato consumado. Não há como afirmar hoje que haverá "complicação orçamentária" em 2028; o que existe é uma projeção de deterioração das contas caso nada mude, e um consenso entre gestoras de que a agenda precisa andar logo. É um alerta, e os alertas podem não se confirmar.

O que o governo responde

O Planalto ouve a cobrança, mas impõe limites a ela. Lula tem repetido que vai perseguir "seriedade fiscal" e que o país, que herdou déficit alto, hoje mira superávit — e, ao mesmo tempo, que o ajuste não sairá às custas dos mais pobres. "Pobre não pagará a conta", afirmou o presidente, segundo o Metrópoles, recusando cortes em programas sociais e investimentos considerados essenciais. É a síntese da tensão: responsabilidade fiscal, sim; austeridade clássica, não.

Nos bastidores, a equipe econômica estuda endurecer o próprio arcabouço fiscal. Entre as ideias em discussão, segundo a Revista Oeste, estão tornar o contingenciamento permanente — e não só anual —, permitir restrições a despesas obrigatórias hoje protegidas (pisos de saúde, educação e benefícios) e obrigar o governo a perseguir o centro da meta fiscal, o que exigiria superávit de R$ 8,5 bilhões em 2027. O anúncio de um pacote estava previsto para até o fim de novembro, mas Lula não demonstrou pressa e quer ouvir diferentes integrantes da equipe.

Por isso as definições ficaram para depois. Segundo análise da consultoria Arko Advice divulgada pela CNN Brasil, nenhuma decisão sobre o comando da Fazenda ou sobre medidas orçamentárias deve sair antes de Lula voltar de sua viagem à Ásia, na segunda quinzena de novembro — ficando para então também a tramitação urgente da reforma tributária, da MP do Imposto Seletivo à definição da alíquota da CBS, que o Tribunal de Contas da União sugeriu em 11,3%.

Como primeiro gesto público, Lula deve fazer neste domingo (8), às 20h30, um pronunciamento em rede nacional no qual, segundo a Oeste, vai defender responsabilidade fiscal e fazer um apelo à união nacional — mas sem detalhar medidas, que ficariam para depois da viagem ou já para 2027.

O humor do eleitor

A economia também pesa na opinião pública. Pesquisa Quaest realizada de 30 de outubro a 2 de novembro, com 2.004 pessoas e margem de erro de 2 pontos, mostrou um empate inédito no terceiro mandato de Lula: 39% esperam melhora da economia nos próximos 12 meses e 39%, piora (19% acham que ficará igual). Em agosto, os otimistas eram 46% e os pessimistas, 24%. Entre os temas que mais preocupam, economia, gastos, dívida e juros somam 27% das respostas — à frente de segurança (17%). O pessimismo, segundo a Quaest, concentra-se entre os eleitores de maior renda, do Sul e com ensino superior.

Então, dá tempo?

O que se sabe é o diagnóstico e o calendário. A dívida está em trajetória de alta, o Orçamento é rígido, e mercado e gestoras convergem num ponto: a janela política para um ajuste consistente é de cerca de um ano a 18 meses, antes que as eleições municipais de 2028 fechem o Congresso para medidas impopulares. Esse é o relógio que o governo passou a correr contra.

O que não se sabe é se o prazo será cumprido — nem se o alarme se justifica no tamanho em que o mercado o pinta. O governo diz que fará o ajuste sem sacrificar os vulneráveis e ainda não apresentou o pacote; o anúncio foi adiado para depois da viagem de Lula à Ásia. Até lá, não há medida concreta sobre a mesa, apenas sinalizações. A resposta honesta é que a conta de 2028 ainda não está fechada: depende de reformas que não foram anunciadas, de um Congresso que ainda não votou e de um governo que promete arrumar as contas sem pagar o preço político de cortar gastos. O primeiro teste virá quando Lula voltar da Ásia e colocar números no lugar das promessas.

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