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Lula quer a China bancando as florestas. Por que Pequim ainda segura o cheque

Na primeira viagem internacional após a reeleição, Lula desembarca na COP31, na Turquia, com uma missão — convencer a China a investir no TFFF, o fundo de florestas criado pelo Brasil. Pequim oferece apoio político, mas evita o compromisso financeiro. O que está em jogo, e por que a China resiste.

Redação Apuração 2026 · 7 de novembro de 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), na COP30, em Belém, em 6 de novembro de 2025
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), na COP30, em Belém, em 6 de novembro de 2025 · Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

A primeira viagem internacional de Lula (PT) depois da reeleição não será a uma capital, mas a uma conferência do clima. Nesta segunda-feira, 9 de novembro, o presidente embarca para a COP31, que acontece em Antália, na Turquia, nos dias 11 e 12 de novembro. Leva na bagagem uma meta concreta e um interlocutor difícil: quer que a China ponha dinheiro no fundo de florestas que o Brasil criou — e a China, até agora, oferece aplausos, não recursos.

O fundo tem nome comprido e sigla em inglês: TFFF, de Tropical Forests Forever Facility, ou Fundo Florestas Tropicais para Sempre. É a principal aposta ambiental do governo brasileiro, e sua capitalização virou um teste diplomático. A pergunta que o Planalto tenta responder na Turquia é direta: o que faz a segunda maior economia do mundo, maior parceira comercial do Brasil, dizer sim ao projeto e não ao desembolso?

A primeira agenda externa do novo mandato

Para a equipe diplomática de Lula, a conferência do clima é "um dos foros mais importantes" da política externa brasileira — por isso virou a estreia internacional do quarto mandato. O Brasil chega à COP31 depois de ter sediado a COP30, em Belém, em novembro de 2025, e com a tarefa de manter o protagonismo que assumiu na agenda ambiental.

A viagem é curta e emendada. Segundo a CNN Brasil, Lula parte do Brasil na segunda-feira (9), participa da cúpula de líderes em Antália nos dias 11 e 12, faz uma visita de Estado às Filipinas no dia 13, segue para a cúpula da Asean, em Manila, nos dias 14 e 15, e volta a Brasília na manhã do dia 16. Em Antália, ele deve defender o reforço do fundo de florestas em evento dedicado ao tema.

O fundo que o Brasil inventou

A ideia do TFFF foi anunciada por Lula em 2023, na COP28, em Dubai, e saiu do papel em 2025, com o lançamento oficial durante a COP30, em Belém. A proposta tenta resolver um problema antigo da política climática: dinheiro de verdade para quem mantém a floresta de pé.

O desenho é diferente dos fundos tradicionais. Em vez de financiar projetos, o TFFF paga por resultados: países com florestas tropicais recebem uma remuneração por hectare preservado, com desconto para cada hectare desmatado ou degradado, e só depois de a verificação por imagens de satélite confirmar que o desmatamento ficou abaixo de limites pré-definidos. O modelo reserva, ainda, pelo menos 20% dos pagamentos nacionais a povos indígenas e comunidades tradicionais. Entre os países que podem ser beneficiados estão Brasil, Colômbia, Peru, Indonésia, República Democrática do Congo e Gana.

A engenharia financeira é o que torna o número final tão grande. O fundo combina capital público e privado: a aposta é que os aportes dos governos — a meta era reunir US$ 25 bilhões — funcionem como alavanca para atrair o setor financeiro e chegar a um total de US$ 125 bilhões para a conservação das florestas tropicais.

Esse patamar ainda está distante. O Brasil deu o primeiro passo com um aporte inaugural de US$ 1 bilhão, anunciado na Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2025. No lançamento, em Belém, somaram-se Noruega (US$ 3 bilhões), Indonésia (US$ 1 bilhão) e França (US$ 500 milhões). Em outubro deste ano, a Holanda anunciou US$ 500 milhões, ao longo de dez anos, e outros países, como Alemanha, Reino Unido e Luxemburgo, aderiram à coalizão. Hoje o fundo reúne cerca de US$ 7,8 bilhões em compromissos. Lula chega à COP31, segundo o Poder360, em busca de cerca de US$ 2,2 bilhões a mais.

Por que a China virou o alvo

É aí que entra Pequim. A avaliação do governo brasileiro, segundo reportagem do portal Brasil 247, é que a adesão financeira da China teria um efeito multiplicador: se a segunda maior economia do mundo abrir a carteira, outras nações se sentiriam estimuladas a fazer o mesmo, destravando aportes que hoje estão represados. Por isso o Planalto prepara uma nova rodada de negociação com os chineses às vésperas da conferência.

Antes de viajar, Lula vendeu o fundo como oportunidade de negócio, e não como filantropia. Afirmou que a questão ambiental "pode ser muito lucrativa para investidores" e que a estratégia é atrair novos parceiros estratégicos globais, "a exemplo de potências asiáticas como a China". O argumento brasileiro é que o TFFF não pede doação a fundo perdido: remunera quem aplica, com retorno financeiro atrelado à floresta em pé.

A escolha da China não é aleatória. Ela é a maior parceira comercial do Brasil e a segunda maior economia do mundo — e, no ano passado, Lula e Xi Jinping ampliaram a parceria bilateral. Um aporte chinês no fundo criado pelo Brasil teria peso político muito além do valor em dólares, justamente por servir de sinal para os demais países que o Planalto espera atrair.

O que a China responde

A resistência de Pequim, porém, não é improviso de ocasião. Até aqui, segundo o Brasil 247, a China tem oferecido respaldo político ao TFFF, mas evita o compromisso financeiro, e fundamenta a recusa num princípio que defende há décadas na diplomacia climática: o das "responsabilidades comuns, porém diferenciadas". A tese sustenta que os países desenvolvidos, responsáveis pela maior parte das emissões históricas, devem liderar o financiamento ambiental — e a China, apesar do tamanho de sua economia, continua a se classificar como país em desenvolvimento.

Essa posição apareceu de forma explícita ainda na COP30. Questionado sobre o fundo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, conclamou "os países desenvolvidos a fornecerem apoio financeiro suficiente aos países em desenvolvimento" — um recado que, na prática, devolve a conta a Estados Unidos e Europa. Em termos diplomáticos, é apoio ao objetivo e silêncio sobre o cheque.

O impasse tem um pano de fundo que não ajuda o Brasil. Os Estados Unidos, que historicamente puxariam esse tipo de financiamento, saíram do centro da agenda climática, e não reconheceram sequer a reeleição de Lula — foram, ao lado da Argentina, os únicos das Américas a não se manifestar, segundo o TSE. Com Washington ausente, a aposta brasileira em um financiador de porte recai sobre a China. Que, por ora, repete o roteiro de sempre: a conta é dos ricos.

Pequim vai abrir o cofre?

O que se sabe é que o Brasil vai à Turquia disposto a cortejar a China e que o fundo ainda está longe da sua meta de capitalização. O governo contabiliza cerca de US$ 7,8 bilhões em compromissos, diante de um alvo de longo prazo de US$ 125 bilhões, e busca reforços imediatos na cúpula de líderes. A estratégia brasileira é reposicionar o TFFF: não como ajuda ambiental, mas como investimento rentável — uma moldura pensada, em boa parte, para seduzir Pequim.

O que não se sabe é se a tática vai funcionar. Até o embarque, a China não havia anunciado qualquer aporte, e sua posição pública continuava a ser a de apoio político sem dinheiro, ancorada no princípio das "responsabilidades diferenciadas". Um gesto chinês na COP31 seria uma vitória diplomática expressiva para o Brasil; a ausência dele deixaria o fundo dependente de europeus e de capital privado para crescer. A resposta começará a aparecer em Antália, nos dias 11 e 12 — quando se verá se o apoio verbal de Pequim ao projeto de Lula vira, enfim, cifra.

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