Apuração 2026

Artigos

Por que o Banco Central parou de cortar os juros — e quando os cortes voltam

Depois de cinco quedas seguidas, o Copom manteve a Selic em 13,75% na primeira reunião após a reeleição de Lula. O governo fala em juro "muito alto"; o Banco Central aponta incerteza fiscal. O que se sabe sobre a volta dos cortes.

Redação Apuração 2026 · 5 de novembro de 2026

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante palestra em São Paulo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante palestra em São Paulo · Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

No dia 4 de novembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. A decisão interrompeu uma sequência de cinco cortes seguidos de 0,25 ponto percentual, iniciada em março, que tinha baixado a taxa de 15% para os atuais 13,75%. Foi a primeira reunião do Copom depois da reeleição de Lula (PT), em 25 de outubro — e bastou isso para transformar uma decisão técnica em disputa política.

Para o governo e para boa parte da esquerda, o Banco Central puniu o país por causa do resultado das urnas. Para o mercado e para a oposição, os juros altos são a conta da política fiscal do próprio governo. A pergunta que ficou é direta: por que os cortes pararam, e quando voltam?

O que o Copom decidiu, e o que disse

O comunicado do Copom não fala em eleição. Fala em incerteza. O colegiado descreveu um "cenário desafiador", marcado por "aumento significativo das incertezas", e definiu a Selic atual como "substancialmente contracionista" — ou seja, uma taxa alta o bastante para segurar a economia. O argumento central é a inflação: as expectativas de preços medidas pela pesquisa Focus se afastaram ainda mais da meta de 3%, e estão hoje em torno de 5,2% para 2026 e 4,8% para 2027. A própria projeção do Banco Central para o IPCA de 2026, de 5,22%, está acima do teto de 4,5%.

Pesou também o câmbio. Segundo a CNN Brasil, o dólar subiu 9,46% entre a eleição e a reunião, de R$ 4,98 para R$ 5,45, movimento ligado ao receio do mercado com os rumos das contas públicas no novo mandato. Dólar mais caro pressiona preços e dificulta a queda dos juros. O comitê não se comprometeu com o próximo passo e disse que vai "continuar monitorando" a evolução do quadro.

O governo reage, a esquerda ataca

A decisão foi lida no Planalto como um recado. Já na manhã seguinte, Lula convocou o ministro da Fazenda e economistas do PT para discutir medidas para a economia depois da parada nos cortes.

O tom dentro do governo, porém, foi contido. O ministro da Fazenda, Dario Durigan — que assumiu a pasta em março, no lugar de Fernando Haddad, que saiu para disputar o governo de São Paulo —, chamou a Selic de "bastante alta e muito ruim para a economia e para todos os setores", mas evitou criticar diretamente a decisão do Banco Central. Durigan reconheceu que cabe ao governo "dar as condições" para que a taxa caia de forma sustentável, com corte de privilégios, revisão de benefícios fiscais e um esforço para zerar o déficit.

Fora do governo, a reação da esquerda foi mais dura. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) chamou a manutenção da taxa de "vergonha" e escreveu nas redes: "BC interrompe queda de juros porque o Lula ganhou". Em outra publicação, resumiu a crítica numa frase: "O povo vota, mas quem manda são os barões da Faria Lima?". É uma acusação de motivação política — a de que o Banco Central teria mudado de rumo por causa do resultado eleitoral. O Copom, que é formado pela diretoria do BC e decide por votação, atribuiu a parada à inflação e ao câmbio, não à eleição.

A indústria também cobra cortes

A pressão por juros menores não vem só da esquerda. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) classificou a decisão como "excessivamente conservadora" e cobrou a volta dos cortes na reunião de dezembro. Segundo a entidade, o juro real do país está em 8,4%, bem acima do patamar considerado neutro, perto de 5%, e o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 29% em agosto, o maior em 21 anos. "A Selic permanece muito alta e isso afeta crédito, investimentos e a atividade econômica", disse o presidente da CNI, Ricardo Alban. A Fiesp seguiu a mesma linha e afirmou que os juros punem "quem produz e consome". O Brasil, vale lembrar, segue no topo do ranking mundial de juros reais, segundo levantamento noticiado pela Folha.

A outra leitura: a conta do fiscal

Do outro lado do debate, a avaliação é que o Banco Central não criou o problema — apenas respondeu a ele. Para o colunista William Waack, da CNN, "juros não são causa, são em geral consequências de outras coisas, principalmente decisões políticas", e o ponto central seria a dificuldade do governo em conter gastos. No mesmo sentido, análise do site O Antagonista afirmou que "a solução para o problema dos juros está nas mãos do presidente há quatro anos": sem ajuste nas contas, o BC manteria a taxa alta para conter a inflação.

Economistas ouvidos pela imprensa também leram a decisão como sinal de autonomia, não de política partidária. Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial, "o Copom continua independente e continua tentando tomar suas decisões sem interferência política". Fernando Honorato, do Bradesco, avaliou que o comitê tentou "colocar a bola no chão", resistindo tanto à pressão por cortes quanto às apostas do mercado em uma alta de juros.

Quando os juros voltam a cair?

A resposta honesta é: ninguém sabe ainda, e o próprio Banco Central fez questão de não prometer nada. O que se sabe é o calendário. A próxima e última reunião do ano acontece nos dias 8 e 9 de dezembro. Economistas notaram que o comunicado deixou a "porta aberta", mas condicionou qualquer decisão à evolução dos dados — inflação, expectativas e câmbio.

Na prática, a volta dos cortes depende de dois movimentos que não estão sob controle do Copom. De um lado, as expectativas de inflação precisam parar de subir. De outro, o governo precisa convencer o mercado de que vai segurar os gastos — exatamente o que Durigan prometeu buscar e o que a reunião convocada por Lula pretende destravar. Enquanto esses sinais não vierem, a aposta predominante entre analistas é de que a Selic fique onde está até o fim do ano.

O que ficou claro em 4 de novembro é o tamanho do desacordo. Governo, indústria e esquerda querem juros menores agora; o Banco Central e boa parte do mercado dizem que isso só vem depois de um ajuste nas contas públicas. Os dois lados concordam num ponto: a taxa está alta. Discordam de quem tem a chave para baixá-la. A próxima pista virá em dezembro.

Mais artigos

Fachada do Ministério do Trabalho e Emprego, em Brasília; o canal de denúncias de assédio eleitoral do ministério recebeu 4,3 mil queixas em três diasArtigo

Depois do voto: 4,3 mil denúncias de assédio no trabalho e aldeias sob proteção da Força Nacional

Em três dias, o Ministério do Trabalho recebeu 4.305 queixas de patrões que pressionam empregados pelo voto; em Mato Grosso do Sul, servidores admitiram à PF ameaças de envenenar a água de uma aldeia. O que já foi comprovado, o que ainda é só denúncia e o que cada lado diz. Atualizado em 03/11 com a cobrança do STF ao governo de MS e o balanço do MDHC.

31 de outubro de 2026 · Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil